O Brasil pode registrar em 2026 o maior déficit de armazenagem de grãos já observado no país. Estimativas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que a capacidade de estocagem deverá ficar 135,4 milhões de toneladas abaixo da produção prevista para a safra 2025/2026.
De acordo com o levantamento, a produção nacional pode alcançar 353,4 milhões de toneladas, enquanto os armazéns existentes no país conseguirão guardar apenas cerca de 61,7% desse volume. O cálculo foi elaborado pela CNA com base em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
Atualmente, a capacidade estática de armazenagem brasileira varia entre 200 e 230 milhões de toneladas, volume considerado insuficiente para acompanhar o crescimento da produção agrícola nacional, que vem registrando sucessivas safras recordes nos últimos anos, impulsionadas principalmente pela soja e pelo milho.
Especialistas apontam que o problema está relacionado ao descompasso entre o aumento da produção e os investimentos em infraestrutura logística. A colheita brasileira se concentra em poucos meses do ano, principalmente entre março e junho, período em que a colheita da soja coincide com o avanço da safra de milho.
Nesse cenário, a demanda por transporte e armazenamento aumenta rapidamente. Sem espaço suficiente para estocar os grãos, parte da produção é transportada diretamente do campo para portos e indústrias, o que acaba transformando caminhões em uma espécie de “armazém sobre rodas”.
Essa situação pode provocar filas em terminais de escoamento, elevar os custos logísticos e pressionar os preços pagos aos produtores.
O problema é ainda mais evidente em regiões de forte produção agrícola. Em Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, a capacidade de armazenagem cobre cerca de 50% da produção. Já na região conhecida como Matopiba — formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — esse índice chega a aproximadamente 44%.
A limitação de estruturas de estocagem faz com que muitos produtores sejam obrigados a vender a safra logo após a colheita, período em que a oferta no mercado é maior e os preços tendem a ser mais baixos.
Além disso, especialistas alertam que falhas no armazenamento podem provocar perdas de produção. Estudos indicam que cerca de 10% dos grãos podem ser perdidos durante o processo, seja por umidade, pragas ou deterioração.
Diante da expectativa de novas supersafras nos próximos anos, analistas defendem a ampliação de investimentos em silos e armazéns, tanto dentro das propriedades rurais quanto em estruturas logísticas maiores.
Em países como os Estados Unidos, grande parte da armazenagem está localizada dentro das fazendas, permitindo aos produtores maior controle sobre o momento de venda da produção. No Brasil, porém, apenas uma pequena parcela dos silos pertence diretamente aos agricultores, o que aumenta a dependência de cooperativas e empresas privadas para armazenar a safra.




