Quem tem para onde voltar sabe até onde pode ir

Ter raízes é ter freio moral, É ter olhar para o qual voltar, É se libertar daquela dor E reconhecer, enfim, o próprio valor.

O escritor brasileiro, Leandro Karnal, em seu canal no Youtube, conversou com uma Inteligência Artificial (IA) e trouxe o que o poeta chileno Pablo Neruda, prêmio Nobel, disse sobre Hernán Cortez, o conquistador do México.

Karnal explica que Neruda via Cortez como um homem mau por uma ausência específica: ele não tinha Pueblo – família, cidade, país, um grupo de pessoas de um lugar. Não tinha origem. Não tinha família nem chão para o qual voltar. E não tendo a quem voltar envergonhado, não tinha freio moral.

Pôde ser, então, um dos maiores assassinos da história.

O escritor se virou para a IA e perguntou, com a precisão de quem sabe fazer uma pergunta cirúrgica:

– Você tem pai?

A IA respondeu com uma honestidade desconcertante:

– Eu não tenho pueblo. Não há aldeia para onde eu volte envergonhado.

Esse trecho do vídeo me fez refletir além da filosofia e da ética, e me conduziu a uma outra questão: qual é a raiz da vergonha?

A psicanálise mostra que a vergonha nasce cedo. Quando o bebê chora e não tem uma pessoa para acudi-lo. Quando a mãe está presente no corpo, mas ausente no olhar. Nasce da sensação de desamparo, de abandono.

Freud entende que a vergonha nasce no espaço entre a pessoa que se é e a pessoa se idealizou ser. A vergonha diz: “Eu sou errada.” Quando o sujeito comete um ato que o afasta radicalmente da pessoa que idealizou ser, o supereu cobra. Cobra com insônia. Sem parcelamento, sem desconto, sem negociação. Pior que fatura de cartão de crédito em janeiro.

Não é fraqueza. É a arquitetura da consciência funcionando.

Na constelação familiar, compreendemos que quando uma criança nasce, ela já está dentro de uma teia de histórias. Há avós que não foram vistos. Há traumas que não foram nomeados. Há vergonhas que foram enterradas, porque enterrá-las parecia, naquele momento, a única forma de sobreviver.

E essa teia não fica parada no passado, ela viaja. Atravessa gerações como um roteiro herdado, silencioso, cheio de rotas já traçadas. E alguns de nós passa a vida seguindo por territórios que nunca nos reconheceram como seus, repetindo, sem saber, o exílio de quem não tinha pueblo.

Isso não isenta. Não justifica. Não apaga. Mas o eixo pode ser mudado. O que foi herdado pode ser devolvido ao lugar de origem, com amor e discernimento.E isso começa com um gesto simples: voltar o olhar para a família e para si mesmo. Ainda que esse olhar queime. A vergonha que arde é, ela mesma, a prova de que o vínculo ainda existe. De que há pertencimento.

Descobre que, ao contrário da IA, tem aldeia para onde voltar. Tem rosto para o qual responder. E ter isso é o que faz dele não apenas um ser com história, mas um ser com freio moral, com raiz, com valor e é o momento em que a consciência passa a ser guia.

A criança que foi um dia e o seu pueblo te reconhecem?

(*) BRUNA BERTHOLDO é Escritora. Poeta. Consteladora Familiar. Neurociência aplicada.

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