08/10/2016 às 14h52min - Atualizada em 08/10/2016 às 14h52min

Só falta uma boa chinelada no Neymar

Edson Militão

O último treinador que conseguiu passar tanta alegria em jogar pela seleção brasileira foi Telê Santana, há 34 anos, na Copa de 1982.

Tite não esconde a receita e busca agora o mesmo elixir para resgatar aquele futebol que encantou o mundo, embora tenha perdido a Copa. Telê não apenas reunir craques – Zico, Falcão, Júnior, Sócrates, Leandro, Cerezo, Éder –, como transmitiu a eles a ideia de que o futebol pode ser uma diversão com responsabilidade.

Tite herdou os mesmos jogadores de Dunga e de Felipão. Mexeu pouco na escalação, mas muito na cabeça. É visível o prazer, a alegria da atual seleção no trato com a bola.

Acho até melhor esses intervalos nas convocações, para que a homeopatia eficaz do técnico não vire xarope. Às vezes, uma sequência grande do mesmo remédio enjoa.

Se a seleção vive um bom momento, Neymar atravessa uma fase técnica excepcional. Está jogando demais. Na habilidade do drible, na colocação de espaço, na visão para lançamento, na conclusão ao gol.

Os números projetam o craque, talvez como o melhor de todos, abaixo óbvio apenas de Pelé. Neymar chegou a 49 gols, devendo ultrapassar em breve Romário, e alcançando em dois anos ou menos Ronaldo, que fez 62.
Sua fase atual é encantadora. É, em campo, a reencarnação de Garrincha no drible, a reminiscência de Careca na velocidade, a essência de Tostão no curto espaço.

No entanto, Neymar irrita pelo comportamento. Não tem a irreverência de Maradona ou a soberba de Di Stéfano. Não se enquadra no campo do bad boy Edmundo, nem do rebelde George Best. Não tem o perfil contestador de Sócrates, nem a ousadia política de Caszely. Menos ainda o fleugma de Lionel Messi. Suas atitudes continuam infantis. Burras. Neymar provoca e é provocado. Agride e é agredido. Será que foi um piá mimado? É provável. Não lhe impuseram limites? É possível. A falta de limites é nociva para qualquer criança. Ele perde fácil a noção de limite.

Olhando para o Tite, que não tem nada a ver com isso, parece a figura do pai que passa vergonha numa festa, no shopping, tentando controlar os berros do filho. A criança quer sorvete, chocolate, se joga no chão.

São filhos de pais que passam a mão na cabeça quando deveriam agir com mais rigor para educar. Um tapa que não machuca é justo, merecido, explicado. Não é violência, mas sim disciplina e corretivo.

Lembrando que a generosidade financeira de Neymar para a família é uma coisa. O exemplo que transmite pelas atitudes é outra. A responsabilidade pública que ostenta é imensa, na medida em que milhares de jovens nele se espelham.

Longe de ser o monstro pintado por Renê Simões, Neymar foi uma criança mimada. Precisa (será que ainda dá, e se dá quem daria?) de uma boa chinelada. É a regra para enfrentar o mundo que dá tanto tapa na gente.

Bichos do Paraná

Gratificante ver três titulares da seleção brasileira que não saíram daqui como protagonistas, jogando muito bem: Fernandinho (Atlético), Giuliano (Paraná), e Miranda (Coritiba).

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