12/10/2016 às 11h43min - Atualizada em 12/10/2016 às 11h43min

Conheça o casal que abriu mão de escolhas e fez família com o coração

Antes dar à luz, Marcela Semeguini adotou um menino de sete anos e uma menina especial

R7
A família Nascimento Sinas: Marcela, Valentina, Vitória, Ivan e Rodrigo Eduardo Enomoto/R7

A cena se passou pouco antes de Marcela Semeguini do Nascimento, de 33 anos, descobrir que estava grávida. Fazia dois anos que ela e o marido, Rodrigo Sinas, de 43, haviam adotado Ivan, já com sete anos — algo raro, pois crianças mais velhas têm mais dificuldades em encontrar alguém disposto a acolhê-las — e agora um funcionário do Poder Judiciário ligava para saber se o casal aceitaria também na família uma menina com necessidades especiais. Marcela perguntou a idade da criança — um ano e nove meses — e aceitou.

Assim, entre 2013 e 2014, a família Nascimento Sinas cresceu de maneira inesperada: além do menino Ivan, chegaram Vitória, a menina adotada pelo casal, e Valentina, filha biológica.

Com isso, a família tornou-se uma grande exceção entre os lares do País. Poucos são os brasileiros que adotam crianças. Mais raros, os que adotam mais de uma criança. Ainda mais singular, os dispostos a adotar um menino em idade um tanto avançada e com um histórico familiar bastante conturbado, e uma menina que, ainda sem andar ou falar, havia sido diagnosticada com paralisia cerebral (Veja números sobre adoção abaixo).

“A gente não escolhe as características dos filhos”, diz Marcela. “Com os filhos biológicos é assim. Por que com os adotados seria diferente? Sempre encaramos a adoção dessa forma.”

Vitória

Hoje com cinco anos, Vitória é atualmente uma “tagarela”, como define a mãe. E, apesar de um pequeno problema nas pernas, dança balé. No dia em que a reportagem esteve na casa dos Nascimento Silva, ela divertia-se ao fazer a 5ª posição (com os dois braços levantados em arco sobre a cabeça).

A mãe biológica de Vitória era usuária de crack. Entrou em um hospital público quando estava em um prematuro trabalho de parto. Depois sumiu, fugiu do hospital.

A criança ficou alguns meses na UTI. Seu nome, Vitória, foi dado por uma enfermeira, que considerou uma vitória a sobrevivência da menina. Por causa das circunstâncias de seu nascimento, a destituição da guarda foi rápida. E Vitória entrou rapidamente para o cadastro de crianças disponíveis para adoção.

“Com isso, ela ficou disponível ainda bem pequena. Às vezes, o processo demora um pouco e a criança fica apta um pouco mais velha. Para gente, foi uma alegria receber a Vitória ainda bebê”, diz Marcela.

Os Nascimento Sinas só foram procurados para adotar Vitória porque, após a primeira adoção, decidiram se manter ativos no cadastro. “Quando a gente adota a criança, há essa opção”, diz Marcela.

Ivan

“Sempre tivemos a adoção como uma possibilidade”, diz Rodrigo. Ele já tinha dois filhos de uma união anterior. “E não esperamos muito [por um filho biológico]”. No primeiro ano de casamento, Rodrigo e Marcela foram a um fórum perto de onde moram — o Fórum do Tatuapé, na zona leste de SP — para se informar sobre o processo de adoção.

Levantaram os documentos necessários. “Não é difícil”, diz Marcela. “O mais complicado é o atestado de sanidade, pois depende de um médico. Mas não é um bicho de sete cabeças.” O processo para tornarem-se aptos à adoção demorou cerca de um ano.

Depois, o casal não ficou nem um mês na fila (só após um casal se tornar apto à adoção, é que o processo de adoção propriamente dito tem início — veja o passo a passo de uma adoção abaixo).

O fato de Marcela e Rodrigo terem-se aberto a adotar crianças mais velhas tornou o processo mais rápido. Inicialmente, eles limitaram a seis anos a idade máxima da criança que queriam adotar (a maioria dos pretendentes não aceita criança acima de três anos). Depois, ampliaram a idade para oito anos.

Quando chegou à família Nascimento Sinas, Ivan já havia passado por uma situação dura. Ele e o irmão tinham iniciado o período de convivência com outros pretendentes, que acabaram por não aceitar os meninos. “Acharam ele muito agitado”, conta Rodrigo.

De volta ao abrigo, Ivan viu então o irmão ser adotado por outra família. Duas de suas irmãs ficaram com a mais velha, que havia denunciado a mãe por prostituí-las. Restava apenas ele com o futuro indefinido, até que Marcela e Rodrigo tornaram-se seus pais.

Embora o Poder Judiciário não costume liberar a separação de irmãos, o caso de Ivan tornou-se uma exceção.

Valentina

Valentina, a filha biológica do casal, foi a última a chegar na casa dos Nascimento Sinas. O casal havia acabado de concluir o processo de adoção de Vitória quando Marcela engravidou.

“No princípio, eu nem me dei conta”, diz a mãe. “A Vitória demandava uma atenção especial e eu estava dormindo pouco. Então pensei que os sinais da gravidez fossem, na verdade, sintomas da falta de sono.”

Valentina e Vitória, então, desenvolveram-se praticamente juntas. Aprenderam a falar na mesma época e hoje adoram brincar com Ivan, o irmão mais velho. Quando a reportagem os visitou, ele as estimulava a pular. E cantavam.

Assim, a família virou exemplo: hoje, os Nascimento Sinas são chamados para participar de eventos sobre adoção em fóruns. Quando questionados sobre a possibilidade de adotarem mais uma criança, Marcela e Rodrigo sorriem. E dizem não saber responder ainda.

 


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