16/10/2016 às 13h42min - Atualizada em 16/10/2016 às 13h42min

“Não adianta agora ficarmos em cima de especulações”, diz bispo

Dom Juventino diz que João Paulo Nolli era alegre e comunicativo; ele pede reforma na Educação

Jad Laranjeira
Mídia News
O bispo diocesano de Rondonópolis, Dom Juventino Kestering, de 70 anos (Foto: Gilberto Leite/RDNews)

A morte violenta do padre João Paulo Nolli, de 35 anos, chocou não só Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá), onde o pároco atuava, mas também provocou comoção em toda comunidade cristã mato-grossense.

Ele atuava na Paróquia São José Esposo desde 2010 e foi brutalmente assassinado no último sábado (8). Três menores foram apreendidos pelo crime. Mesmo eles tendo confessado que estrangularam o padre até a morte para roubá-lo, diversas especulações tomaram conta das redes sociais a respeito do motivo da sua morte.

Para o bispo diocesano de Rondonópolis, Dom Juventino Kestering, de 70 anos, não adianta mais as pessoas ficarem levantando especulações. Elas deveriam, sim, chamar atenção para que a cidade se torne menos violenta.

“Não adianta agora ficarmos em cima de especulações. Ele morreu e já foi sepultado. Agora vamos ter que reconstruir tudo novamente para que nossa cidade seja mais humanizada e menos violenta”, disse em entrevista ao MidiaNews.

Segundo o religioso, a sociedade precisa se preocupar com o País e investir mais na Educação.

“Eu penso que deve haver soluções a nível de País. Então eu volto no que sempre digo: enquanto continuarmos nesse mesmo sistema educacional que temos, estaremos criando uma cidade violenta. Nós precisamos ter escolas atrativas, com uma série de atividades. Esse é dos caminhos a se tomar”, acredita.

“Infelizmente esse fato é doloroso para nós, mas que sirva de exemplo para que recomecem novos caminhos para nossa sociedade”.

O bispo classifica a morte do padre como “uma barbárie”. Afirma ainda que a sociedade não aguenta mais viver com tantos roubos e assaltos.

“Não há quem não tenha levado um choque pela forma como ele veio a perder a vida. Foi uma barbárie para nós. Se fosse uma morte natural, seria mais aceitável, mas não foi. Então isso criou um choque em toda cidade - não foi só na Igreja. Como a cidade já é violenta e a população não aguenta mais viver com tantos roubos e assaltos, a sociedade estourou e se revoltou, pedindo medidas drásticas”, disse.

“Mas nós, da Igreja, não queremos e não vamos fazer nem um tipo de incitamento à violência. Estamos promovendo uma cultura da paz. Nosso papel é de justiça sim, mas também é de procurar acalmar a violência – mas não violência com violência. Existem outros métodos que deve ser implantados para que nossa cidade tenha uma cultura de fraternidade. Nós estamos vivendo um momento de comoção”, explicou.

“Comunicativo e alegre”

Dom Juventino acompanhou toda a trajetória de vida do padre João Paulo, desde que chegou a Mato Grosso – quando era apenas um jovem com vários sonhos e planos de uma sociedade melhor.

“Ele chegou jovem ainda aqui, vindo do Paraná, e foi trabalhar primeiro em Juscimeira. Depois entrou em contato com os padres de lá e disse que gostaria de ser padre. Então fez seminários em Cuiabá, estudou e teve a orientação do Dom Giovani. Assim que terminou 2006, com 26 anos na época, fez o pedido para se tornar padre na diocese de Rondonópolis – o que foi analisado e aceito pelo conselho de presbíteros”, contou.

João Paulo começou a atuar na paróquia São José Esposo, como vigário paroquial. Conforme o bispo, já se mostrou pró-ativo desde o início.

“Ainda como vigário ele já apresentava muitas iniciativas – era muito inteligente. Um padre jovem e com uma facilidade de comunicação surpreendente. Ele começou a promover coisas novas na igreja e na comunidade com as famílias”, disse.

Já como padre na paróquia, o sacerdote iniciou uma série de reformas na igreja. Era conhecido na cidade – tinha dois programas, um na TV e outro no rádio. Além disso, sempre foi bastante convocado para realizar casamentos e palestras para jovens.

“Ele terminou o Grande Templo – que fazia anos que estava em construção. Reanimou e revivou a participação do povo. Nas celebrações, tinha a capacidade de realizá-las alegres e cantantes. Aquilo foi atraindo as pessoas. Ao mesmo tempo, ele foi se dedicando à formação espiritual em retiros com jovens,  formação de casal. Aquilo foi renovando as coisas e deu um reavivamento muito grande na paróquia", disse.

"Tanto que muitos cristãos de outras paróquias começaram a ir na São José, exatamente pelo modo como ele se comunicava e animava as celebrações”, lembrou.

Além disso, o pároco ficou bastante conhecido pelas realizações das missas de “cura e libertação”, que aconteciam uma vez por mês e reuniam em torno de 6 mil fiéis.

“A missa era sempre na ultima sexta-feira do mês. Aquilo atraía muita gente".

Segundo bispo, o padre era muito conhecido em Rondonópolis. "Além dessa missa, era também muito convocado para casamentos, palestras, bênçãos, orações, aconselhamentos... Tanto que ele tinha uma agenda extremamente cheia e a gente até dizia pra ele ter muito cuidado, porque, apesar dele ser jovem, podia ficar muito cansado”, relatou.

O crime

Padre João Paulo foi estrangulado e morreu asfixiado na madrugada de sábado para domingo (09). Horas depois, já na parte da manhã, seu corpo foi encontrado em um terreno baldio no loteamento Parque Rosa Bororo.

Três menores contaram em depoimento ao delegado Gustavo Belão, da Delegacia de Roubos e Furtos de Rondonópolis, que a vítima foi morta dentro do próprio veículo, após um desentendimento com os assassinos.

Após o crime, os jovens roubaram os pertences do padre - R$ 65, um celular e o carro HB20.

Um casal informou que viu o carro sendo abandonado por três indivíduos que aparentavam ser menores de idade. Em seguida, eles fugiram a pé.

Mesmo após a detenção dos adolescentes, a motivação do crime ainda não está clara, portanto as investigações devem continuar, segundo o delegado.

O cortejo

O corpo foi velado na paróquia onde atuava. Devido à superlotação, um esquema de segurança foi montado para os fiéis que quiseram prestar uma última homenagem. 

Além disso, um cortejo extenso foi formado por viaturas dos Bombeiros, das polícias Civil, Militar e Rodoviária Federal, além de dezenas de carros dos fiéis.

O corpo do padre foi encaminhado para o Estado do Paraná, onde foi sepultado.


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