08/10/2016 às 18h01min - Atualizada em 08/10/2016 às 18h01min

Crimes contra assentados cresceram 600% em Mato Grosso, aponta Pastoral

De acordo com recente documento divulgado pela Comissão da Pastoral da Terra, os crimes de mando no estado já chegaram a 1,423 casos somente em 2015.

Max Aguiar
Hiper Notícias
Reprodução

A vida dos assentados que lutam pela regularização de terras no interior de Mato Grosso continua enfrentando dificuldades. Crimes de pistolagem são cometidos em plena luz do dia na frente da família da vítima por pessoas que são pagas para atirar, ameaçar ou atear fogo nos barracos dos acampados.

De acordo com recente documento divulgado pela Comissão da Pastoral da Terra, os crimes de mando no estado já chegaram a 1,423 casos somente em 2015. Se comparado com ano anterior, esse número representa um crescimento de mais de 600%. Em 2014, foram registradas 193 ocorrências.

Conforme o HiperNotícias divulgou em março deste ano, uma área com mais de 380 mil hectares de terras da União está fazendo a região de Novo Mundo (distante 758 km de Cuiabá) viver em estado de sítio por causa de um conflito entre posseiros e integrantes do Movimento Sem Terra (MST).

O caso começou em área que faz divisa com o Pará, em 1999, e já fez mais de 12 vítimas fatais. E todas essas mortes foram de mando, ou seja, posseiros pagavam jagunços para cometer homicídios em verdadeiras emboscadas.

Os dados da Pastoral revelam ainda que 125 pessoas foram assassinadas nos últimos 30 anos por conta de disputa de terra. Em 2015 pelo menos 62 casos de tentativa de homicídios foram registrados, o que aponta um crescimento de quase 59% nesse tipo de ocorrência. Pelo menos 30 mil famílias de assentados em todo Mato Grosso sofreram algum tipo de ataque ou repressão, com tentativas de homicídio e ameaças.

Por conta do conflitos, pelo menos 320 famílias foram obrigadas a deixar a terra em que viviam por causa de ameaças de fazendeiros que reivindicam a posse dos terrenos. Outras 3,4 mil vivem sob risco constante, conforme a Pastoral.

A morte mais recente que está sob investigação da Polícia Civil aconteceu no município de Alta Floresta (distante 800km de Cuiabá). O advogado Rubens Moreno, que fazia a defesa de vários assentados da região da Gleba Nhandu, instalada no município de Novo Mundo, foi morto com três tiros no peito quando chegava a sua fazenda.

Ele foi alvo de uma emboscada, planejada por dois homens que o aguardavam na porteira. Quando desceu do veículo para abrir o portão, foi surpreendido pelos criminosos que o executaram e fugiram pelo mato. Rubens estava com a filha e esposa, que presenciaram o crime.

Antes dele, no centro da cidade de Guarantã do Norte (distante 728 km de Cuiabá), no dia 22 de fevereiro deste ano, um homem identificado como “Adir Caatinga” estava voltando de uma audiência sobre conflito agrário e ao atravessar a avenida principal da cidade, foi executado por um motoqueiro, que atirou três vezes, acertando um dos tiros na cabeça do rapaz.

No dia 21 de fevereiro, um dia antes da morte de Caatinga, um grupo de homens mascarados invadiu a Gleba Nhandu e ateou fogo nos barracos e nos carros. Eles ainda obrigaram alguns assentados a comerem terra e ficarem com o rosto virado para o chão para não serem reconhecidos. Até hoje, o caso é investigado e ninguém foi indiciado.

Recentemente o coordenador da Pastoral da Terra em Mato Grosso, Cristiano Cabral, disse ao site G1 que falta vontade ao Estado e do Judiciário para tomarem uma posição mais rápida quando aos conflitos agrários e determinarem a quem pertence cada terra disputada. Segundo ele, apenas fazer a reforma agrária da forma como o governo tem feito, atualmente, não resolve a situação.

“Hoje, eles jogam as pessoas na terra, mas sem que elas tenham acesso a investimento, crédito, o que acaba impedindo a pessoa de produzir e de escoar essa produção. Não adianta dar a terra e não dar suporte”, afirmou.   


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