09/02/2018 às 16h25min - Atualizada em 09/02/2018 às 16h25min

TV Globo rebate críticas do Conselho de Psicologia sobre novela

'Sem compromisso com a realidade', afirmou a emissora, acusada pelo órgão de prestar 'desserviço' às vítimas de abusos sexuais em 'O outro lado do Paraíso'

Diário de Pernambuco
Na trama, Laura (Bella Piero) foi abusada sexualmente pelo padrasto Vinicius (Flavio Tolezani) durante a infância (foto: Globo/Divulgação)
A Globo defendeu o caráter ficcional e "sem compromisso com a realidade" de O outro lado do paraíso ao se posicionar sobre a nota divulgada pelo Conselho Federal de Psicologia a respeito da novela, na qual afirma se tratar de um "desserviço" à sociedade brasileira e, especialmente, às vítimas de abusos sexuais. Em comunicado, a emissora destacou que trata com seriedade assuntos delicados e até prometeu estimular a denúncia contra violações aos direitos humanos. 
 
"As novelas são obras de ficção, sem compromisso algum com a realidade. A Globo reconhece a importância de todos os seus programas para discussões e reflexões sobre assuntos de interesse da sociedade e está atenta à responsabilidade que lhe é atribuída sobre todos os temas abordados", diz a empresa, em comunicado. No texto, o conselho critica a abordagem dada ao caso de Laura (Bella Piero), abusada sexualmente pelo padrasto Vinicius (Flavio Tolezani) durante a infância. 
 
Na trama, a jovem busca tratamento em um coach (espécie de orientador), que realiza sessões de hipnose para ajudar a lidar com as memórias traumáticas. "O Conselho Federal de Psicologia (CFP) entende que a telenovela O outro lado do paraíso, por se tratar de uma obra capaz de formar opinião, presta um desserviço à população brasileira ao tratar com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico de personagem cuja origem é o abuso sexual sofrido na infância", argumenta a nota. 
 
A Globo rebate a afirmação dizendo que "o que a novela O outro lado do paraíso quer mostrar com o desenvolvimento da trama da personagem Laura é o processo pelo qual passa uma pessoa que precisa de ajuda, recorrendo a diferentes e variadas formas de apoio e terapias, das mais às menos ortodoxas". O canal afirma que, ao final de alguns capítulos, exibirá a cartela de divulgação do Ligue 100, número no qual violações aos Direitos Humanos podem ser denunciadas. 

Veja a íntegra da nota da Globo:

"As novelas são obras de ficção, sem compromisso algum com a realidade. A Globo reconhece a importância de todos os seus programas para discussões e reflexões sobre assuntos de interesse da sociedade e está atenta à responsabilidade que lhe é atribuída sobre todos os temas abordados. O que a novela O outro lado do paraíso quer mostrar com o desenvolvimento da trama da personagem Laura é o processo pelo qual passa uma pessoa que precisa de ajuda, recorrendo a diferentes e variadas formas de apoio e terapias, das mais às menos ortodoxas.
 
É importante reiterar, ainda, a seriedade com que a novela O outro lado do paraíso tem abordado, desde a estreia, questões relacionadas a diferentes tipos de abuso e preconceito. Corroborando o compromisso da Globo com a sociedade, está prevista a exibição, ao final de alguns capítulos, de cartela de divulgação do Ligue 100, número oficial para denúncias de violação de direitos humanos."

Leia o texto do Conselho Federal de Psicologia: 

"Mesmo compreendendo o caráter de uma obra de ficção, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) entende que a telenovela O outro lado do paraíso, por se tratar de uma obra capaz de formar opinião, presta um desserviço à população brasileira ao tratar com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico de personagem cuja origem é o abuso sexual sofrido na infância.
 
Quanto ao argumento de que se trata 'apenas' de ficção, lembramos que são as novelas da Rede Globo que, como estratégia de elevar a audiência, frequentemente buscam embaralhar as barreiras do ficcional e do real, entre outras formas, introduzindo nas tramas fatos e temas candentes da sociedade.
 
É consenso no Brasil de que pessoas com sofrimento mental, emocional e existencial intenso devem procurar atendimento psicológico com profissionais da Psicologia, pois são os que tem a habilitação adequada. Isso é amplamente reconhecido por diversas políticas públicas, entre elas o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que empregam essas profissionais em larga escala. Mesmo na saúde suplementar, o exercício do cuidado psicológico é reconhecido e regulamentado. Há normas da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) que obrigam os planos de saúde a oferecerem atendimento por profissionais da Psicologia.
 
Somos uma profissão regulamentada pela Lei 4.119, de 27 de agosto de 1962, os cursos de Psicologia são aprovados e fiscalizados pelo Ministério da Educação e o Ministério da Saúde reconhece a Psicologia como uma profissão da saúde. As mais prestigiadas universidades públicas e privadas oferecem formação em Psicologia e nossa ciência e profissão passam rotineiramente pelo escrutínio das pesquisas acadêmicas. Tudo isso confere segurança à sociedade de que se trata de uma ciência e profissão respaldadas ética e tecnicamente.
 
Saudamos como positiva a manifestação de diversos grupos e escolas de coaching, que, manifestando-se sobre o ocorrido, afirmaram compreender que os transtornos mentais devem ser cuidados por profissionais da saúde mental.
 
O CFP faz um alerta à sociedade para que não se deixe iludir. As pessoas devem buscar terapias adequadas conduzidas por profissionais habilitadas para os cuidados com a saúde, particularmente a saúde mental."

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