10/02/2018 às 15h01min - Atualizada em 10/02/2018 às 15h01min

Ano de 2018 já contabiliza morte de dez mulheres, sendo 8 casos de feminicídios registrados

Olhar Direto
Vinicius Mendes
Desde o dia 3 de janeiro até o último dia 8 de fevereiro dez mulheres já foram assassinadas em Mato Grosso, oito delas por feminicídio. Representantes da sociedade civil e autoridades femininas se manifestaram com relação a este cenário.

A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) decidiu que os boletins de ocorrência registrados em Mato Grosso passarão a contar com um campo para melhorar o monitoramento de casos de feminicídio.
 
Feminicídio é um termo utilizado para definir o crime de ódio baseado no gênero, amplamente definido como o assassinato de mulheres, mas as definições variam dependendo do contexto cultural. Normalmente os assassinos são companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Em Mato Grosso, desde o início do ano, já foram oito casos nesta modalidade.

O primeiro foi o caso de uma adolescente de 15 anos, identificada como Kelly Cristina Lopes de Morais assassinada a tiros no meio da rua em Rondonópolis no 3 de janeiro. O suspeito do crime seria um namorado dela.

O segundo feminicídio ocorreu em Rondonópolis. Rosineide Maria de Sousa, 45 anos, foi assassinada pelo seu ex-companheiro Valdeci Vieira da Silva, de 47 anos e seu irmão Valdomiro Vieira da Silva, de 40 no dia 7 janeiro. O corpo dela foi encontrada em um rio por um pescador. Os dois acusados foram presos.

No dia 14 de janeiro, Célia Cristina Ferreira foi assassinada a tiros pelo seu ex-marido Vitorino José da Cruz em Várzea Grande. O homem logo depois se matou na frente dos filhos.

Em Guarantã do Norte, Edilene Coelho Santos, de 30 anos, foi assassinada, no dia 17 de janeiro, pelo companheiro Ademilson Nunes, de 30. A vítima foi morta a facadas enquanto amamentava seu filho de 20 dias.

O quinto caso ocorreu em Nova Ubiratã, no dia 25 de janeiro. Maria Lopes dos Santos, de 43 anos, foi assassinada pelo marido com tiros de espingarda. Claudiomir Lima da Silva, de 53 anos, tria matado Maria por causa de ciúmes.

Uma mulher de 35 anos, identificada como Silvani Maria de Souza Menacho, foi encontrada morta e nua ao lado de sua motocicleta no dia 20 de janeiro, no bairro São Luis, em Cáceres. Neste caso não foi confirmado feminicídio.

O último do mês de janeiro foi o caso de Vanessa Tito Poquiviqui Ramos, de 25 anos, assassinada na manhã do dia 31 no Bairro Três Barras, em Cuiabá, supostamente pelo ex. O suspeito se manifestou pelo Facebook negando as acusações.

Já no mês de fevereiro três casos de feminicídio foram registrados nestas primeiras semanas. Débora Pereira da Silva, de 17 anos, foi encontrada morta, nua, em um córrego no bairro Três Barras em Cuiabá. Dois ex-namorados da vítima já foram ouvidos.

No dia 7 uma mulher de aproximadamente 30 anos, identificada apenas como Antônia, foi encontrada morta próximo a um ponto de venda de drogas no município de Lucas do Rio Verde. Este caso também não foi confirmado como feminicídio.

O caso mais recente foi o de Izabel Aparecida do Amaral, assassinada na madrugada desta quinta-feira (8) em uma residência no município de Juara (a 699 km de Cuiabá). O namorado de Izabel, identificado como Magno Aparecido Reato, de 33, foi esfaqueado, mas sobreviveu. O principal suspeito é o ex-companheiro de Izabel, identificado como Marcelo Sales Pereira.

Em entrevista recente, a promotora Lindinalva Rodrigues, do Núcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher do Ministério Público, afirmou que estes casos mostram a necessidade de políticas públicas, visando mudar esta visão de posse que alguns homens tem.

"Todos estes casos em pouco tempo. A gente já vem de um ano muito sangrento para as mulheres, que foi 2017, e não começamos bem o ano de 2018. A gente vê que os agressores são homens de todas as idades, alguns bem jovens, o que mostra que ainda não houve uma mudança no comportamento masculino em relação às mulheres e não temos uma política pública educativa para mudar essa forma possessiva de pensar, dos homens, que preferem ver as mulheres mortas do que longe deles. Porque geralmente matam elas quando elas rompem a relação ou quando elas arrumam outro companheiro. Então é uma relação de possessividade absurda, que acaba com a vida da muher e com a do próprio homem, porque vira um criminoso, irá preso, é uma tragédia para ambas as famílias", afirmou.

Em um artigo publicado recentemente no Olhar Direto, a advogada Sirlei Theis também se manifestou sobre os casos de feminicídio. Ela alerta que o agressor não para na primeira vez.

“Tenho certeza que essas vítimas quando iniciaram esses relacionamentos, jamais pensaram que poderia acabar dessa forma. Agiram e se envolveram levadas pela emoção e quando perceberam que havia algum defeito não aparente na pessoa que estava ao seu lado, já era tarde. Mas que fique de alerta porque existe uma única verdade, o agressor de mulher não para na primeira, são extremamente sedutores e agem sempre acima de qualquer suspeita. Lembre-se, seu bem mais importante é você. Se ame, se cuide, sorria, viva e seja sempre feliz”, recomenda a advogada.

Resultado de uma demanda apresentada pela Câmara Técnica de Defesa da Mulher à Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), os boletins de ocorrência registrados em Mato Grosso passarão a contar com um campo para melhorar o monitoramento de casos de feminicídio e inclusão de vínculo familiar.
 
A questão do vínculo, por exemplo, apontará a relação entre o agressor e a vítima, o que facilitará a identificação e acompanhamento dos casos de violência doméstica. Ela ponderou, no entanto, que esta é uma classificação inicial do crime, que pode ser alterada conforme o andamento das investigações e conclusão do inquérito pela delegacia responsável.
 
Em função de oito feminicídios contra mulheres ocorridos já nos dois primeiros meses de 2018, a defensora pública Rosana Leite, que integra a Câmara, pontuou a necessidade de uma reunião extraordinária com o secretário de Estado de Estado de Segurança Pública, Gustavo Garcia. O encontro será solicitado via ofício com data prevista para 20 de fevereiro. “Precisamos falar sobre esses crimes bárbaros que estão acontecendo, e novas delegacias especializadas de atendimento à mulher são necessidades urgentes”.
 
A Câmara também definiu o envio de ofícios convocando o Poder Judiciário, por meio das varas especializadas de defesa da mulher, e o Ministério Público (MPE) para participarem das reuniões ordinárias. Segundo a coordenadora da Câmara e titular da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM), Jozirlethe Criveletto, ressaltou que a parceria destas instituições é fundamental. “Das quatro mil mulheres que passam pela delegacia por ano, cerca de duas mil requerem medida protetiva, e cabe ao juiz determinar a execução desse mecanismo em até 48 horas após o recebimento do pedido da vítima ou do Ministério Público”.

Para denunciar casos de violência contra a mulher existe um disque-denúncia. O número 180 da Central de Atendimento à Mulher é o canal criado para receber denúncias e orientar mulheres vítimas de violência.
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