17/02/2018 às 12h52min - Atualizada em 17/02/2018 às 12h52min

"Incapaz de qualquer imprudência", diz colega de motorista

Correio conversou com amigos e familiares de seis dos nove mortos no acidente e ouviu relatos de pessoas repletas de planos

Correio Braziliense
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
O acidente com um ônibus e dois caminhões na BR-020, nas proximidades de Formosa, deixou um rastro de destruição. Entre os nove mortos, ficaram para trás viúvos, órfãos, amigos e sonhos. A dor e o sofrimento atingiu mesmo quem não tinha vínculos familiares ou de amizade com as vítimas. Um dos funcionários do Instituto Médico Legal (IML) do município goiano se solidarizou com a tragédia. “Tentamos fazer o mais rápido (a liberação dos corpos), pois sei que isso causa sofrimento. Não tem como não se emocionar vendo isso”, afirmou o servidor.
 
Em menos de 24 horas, famílias de cinco vítimas receberam autorização para velório e sepultamento. O telefone da recepção do IML da cidade não parou de tocar. A todo momento, muitos familiares e até desconhecidos entraram em contato em busca de informações sobre as vítimas. “Teve gente ligando aqui mais de uma vez para confirmar se não era seu conhecido, isso com os responsáveis (familiares) na minha frente. Ontem (quinta-feira), foi um entra e sai frenético”, contou.
 
Correio conseguiu contato com parentes e amigos de seis dos noves mortos. Todos estavam no ônibus. A reportagem ouviu relatos de pessoas repletas de planos. Gente que tentava melhorar de vida, que começaria um novo emprego, que reencontraria familiares depois de muito tempo. Acima de tudo, projetos construídos com esperança. “A morte sempre vem, mas é estranho quando é inesperada”, afirmou Adelino Vieira Gomes, 36, vizinho de comércio de Pedro Nóbrega de Araújo, uma das vítimas.
Pedro, 54, morava em Formosa com a mulher, Rita Maria Araújo, e dois filhos. Ele tinha uma loja de artigos eletrônicos. Poucos minutos antes do acidente, por volta das 8h, ligou para casa e disse que estava perto de chegar. Ouviu da companheira que seria recepcionado com um bolo e brincou dizendo para ela não comer tudo. Os dois eram casados havia 19 anos.
 
A família soube do acidente por uma mensagem em um aplicativo de celular. A partir de então, começou uma saga para conseguir mais informações. A esposa e um dos filhos foram até o local da tragédia, mas, como o trânsito estava bloqueado, não conseguiram falar com ninguém envolvido na operação de resgate. Eles percorreram todos os hospitais de Formosa em busca de Pedro, mas só tiveram certeza da morte quando o filho foi ao Instituto de Medicina Legal (IML) e reconheceu o corpo. “Todo ano, ele ia para a Paraíba visitar a mãe. Nesse ano, não foi diferente. Mas ele fez algo que nunca havia feito. Ele viajava na parte traseira do ônibus. Desta vez, estava três poltronas atrás do motorista. Foi a primeira vez que ele viajou assim”, contou a prima da mulher de Pedro, Andrea Araújo Pereira, 34.

  Além do comércio, Pedro se dedicava a uma chácara também em Formosa. Muito religioso, construiu com as próprias mãos uma capela no local. De acordo com a família, após a viagem, Pedro passaria o comando dos negócios para os filhos e se aposentaria. “Tenho tantas lembranças boas. Ele era como um pai para mim. Sempre me dava conselhos e ia à minha casa quando eu estava doente. A consideração era enorme. Era muito mais do que um sogro”, disse a nora Adriele Costa, 22.
 
Algumas lojas vizinhas à de Pedro amanheceram fechadas e com tecidos pretos pendurados em sinal de luto. “Conhecíamo-nos há mais de 10 anos. Ele era uma pessoa carismática, humilde e amiga de todos. Aqui na Feira da Praça não tem um comerciante que não o conheça. A morte sempre vem, mas é estranho quando ela é inesperada. Ainda mais quando a pessoa é conhecida”, lamentou o amigo Adelino Vieira Gomes, 36. Pedro foi enterrado na manhã de ontem no Cemitério de Formosa. 

Notícias pela tevê

Nataiane Lopes dos Santos, 23, também perdeu a vida na tragédia da BR-020. A jovem deixou a Paraíba com destino a Brasília na esperança de novas oportunidades. A prima Valquíria Delmonte da Silva, com quem moraria em Sobradinho, contou que ela havia conseguido um emprego como vendedora de açaí. Elas haviam combinado de se encontrar no terminal de ônibus da cidade às 7h30. “Ela só tinha a mim aqui. Buscava uma vida nova. Era uma menina muito sonhadora”, disse. O corpo de Nataiane foi liberado ontem pelo IML de Formosa. O velório será no Cemitério de Valparaíso. Em seguida, os restos mortais serão encaminhados para Araripina, em Pernambuco.

Dorgival Lino, 34, é outro passageiro que morreu no acidente. Ele embarcou no ônibus em Ouricuri (PE) e seguiria para Goiânia em busca de emprego. Ficaria hospedado na casa da sobrinha Jéssica Paula da Silva, 24, atendente em um restaurante. “Fomos à rodoviária, mas, quando chegamos lá, nada do ônibus. A empresa não sabia o que tinha acontecido. Fiquei sabendo pela televisão”, relatou.

A paraibana de João Pessoa Wigna Casimiro Gonçalves morava no Distrito Federal havia oito anos e voltou ao estado natal para visitar parentes em Sousa, na Paraíba. Ela deixou três filhos. “Essa mulher é uma guerreira de um bom coração. Muito sorridente. Não tinha maldade no coração. Esse mundo tem poucas pessoas como ela. Wigna só deixou saudades”, disse a amiga Ozana Vieira.

Motorista era responsável

A alegria e a honestidade são as características mais citadas por amigos e familiares para lembrar Edson Lopes Lima, 47 anos. O motorista dirigia o ônibus envolvido no acidente da BR-020, próximo a Formosa. O condutor é apontado pela investigação como possível responsável pela colisão. Colegas de trabalho, no entanto, descrevem Edson como um profissional exemplar. “Ele era incapaz de cometer qualquer imprudência. Não sabemos o que houve, mas ele pode até ter tomado algum medicamento, algo que o fez passar mal. Temos certeza de que ele não cometeu qualquer imprudência”, defendeu Adel Crispim, motorista e colega de Edson, durante discurso no enterro que ocorreu na tarde de ontem, em Brazlândia.
 
Edson nasceu em Padre Bernardo (GO), foi criado em Brazlândia e morava em Valparaíso.  Deixou dois filhos, um jovem de 30 anos e uma recém-nascida. Segundo familiares, tinha sete irmãos. Mais velho entre quatro homens, Edson era visto como um esteio para a família, um líder para irmãos e sobrinhos. Amigo há mais de 20 anos e irmão do cunhado do motorista, o agricultor Manel Pereira dos Santos, 48, destaca a importância do motorista: “Ele vai fazer muita falta para todos. Eu nunca o vi triste, ele sempre estava contente. Era impressionante que todo mundo gostava muito dele”, disse.
 
Na tarde de ontem, cerca de 100 pessoas se reuniram no Cemitério de Brazlândia para se despedir do motorista. A comoção e as homenagens marcaram a cerimônia. Perplexos, familiares e amigos custavam a acreditar que a tragédia tivesse acontecido. Vizinho da família desde a juventude, o servidor público Lázaro Cardoso, 52, lamentou a perda. “A gente ficou sabendo do acidente e só depois viu que era ele. É um choque muito grande.  Eu conhecia os pais, a família, eram todas pessoas boas, e ele era muito trabalhador e alegre”, contou. 

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