20/02/2018 às 14h09min - Atualizada em 20/02/2018 às 14h09min

Sargento chora e defende o cabo Gerson: 'era um bom profissional'

Ricardo Soler disse que não incluiu números indevidamente e reclamou de imagem "manchada"

Mídia News
Lucas Rodrigues e Thaiza Assunção
Foto: João Vieira/Gazeta Digital (GD)

O sargento da Polícia Militar, João Ricardo Soler, afirmou que nunca participou do esquema de escutas clandestinas que operou no Estado e que "dava o sangue" pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), onde atuou desde 2015.

Ele prestou depoimento na manhã desta terça-feira (20) na ação penal que apura os crimes cometidos por militares no caso. A oitiva ocorreu na 11ª Vara Militar de Cuiabá e foi conduzida pelo juiz Murilo Mesquita.

Conforme as investigações, Ricardo Soler atuou em um grupo paralelo que visava atrapalhar a apuração do esquema.

Ele foi o responsável por implantar um equipamento de espionagem na farda do coronel José Soares, que visava gravar o desembargador Orlando Perri em alguma situação que pudesse levá-lo a ser declarado suspeito para conduzir o caso.

São réus do esquema o ex-comandante da Polícia Militar, coronel Zaqueu Barbosa; os coronéis Evandro Alexandre Lesco e Ronelson Barros, ex-chefe e ex-adjunto da Casa Militar, respectivamente; o coronel Januário Batista; e o cabo Gérson Correa Júnior. Dos cinco, apenas Gérson continua preso.

Números para interceptar

João Soler disse que trabalhava no Gaeco e, em 2015, foi chamado pelo coronel Ronelson Barros para atuar na Casa Militar.

"Em fevereiro de 2015 eu estava em Sinop e o coronel Lesco me pediu para ir à Promotoria da cidade. Lá o promotor me falou do estudante que foi morto e roubaram a caminhonete [Eric Severo] e que já tinha dito que havia falado com o secretário de Segurança e o coronel Zaqueu para interceptar alguns envolvidos no crime".

"Eu disse para o promotor que não estava mais trabalhando no Gaeco, mas que poderia ajudar de alguma forma, e ele me passou alguns números".

"No outro dia o promotor me ligou e me entregou um envelope com uma decisão da Justiça. Eu entreguei para o cabo Gerson e essa decisão me autorizava a escutar as pessoas interceptadas. Eu me recordo de ter ouvido presidiários que estavam envolvidos no latrocínio. Não acessei todos os números, pois deixei claro que não tinha disponibilidade de tempo".

Sargento chora e cita constrangimento

Soler negou que tenha escutado alguém fora da investigação do latrocínio de Eric Severo e citou ter sofrido constrangimento após a divulgação do escândalo.

"Cheguei a sofrer constrangimento indireto e velado em alguns grupos de WhatsApp de PM. Os colegas debochavam e perguntavam quanto eu cobrava para grampear".

O sargento começou a chorar e disse que teve a imagem manchada por conta do episódio. Soler admitiu que poderia ocorrer erros nos pedidos de interceptação.

"Já aconteceu de eu pedir uma interceptação de um determinado número e esse número ia para a assessoria do promotor, remetia ao juízo, e do juízo já chegou a retornar o número com prefixo trocado. Então era possível sim erros de digitação".

"Dava o sangue pelo Gaeco"

Soler afirmou que sempre fez seu trabalho de forma correta.

"Quando eu estava no Gaeco, nós acabamos com o Novo Cangaço [quadrilha que assaltava bancos], passávamos dia e noite trabalhando".

Ele contou que atuou no Gaeco por 11 anos e 10 meses, dos quais seis trabalhou com interceptações.

"Durante todo esse período, jamais teve conhecimento de ilicitude envolvendo o cabo Gérson. Eu dava o sangue pelo Gaeco, pela sociedade. Gerson dormia no Gaeco, cansei de comer pizza à noite com ele lá", disse, chorando.

Sistema Sentinela

O sargento passou a explicar o funcionamento do Sistema Sentinela, que era utilizado para promover as escutas. Ele disse que jamais percebeu algo de ilícito.

"O Sentinela não era ferramenta que agia por conta própria, mas precisava de autorização judicial e sua função era bastante simples: receber e gravar chamadas desviadas pela empresa de telefonia".

Ex-sócio de empresa fala do sistema

O empresário José Marilson, ex-sócio da Simples IP (empresa que produziu o Sentinela), também prestou depoimento. Ele afirmou que havia um interesse da PM em não depender do MPE para passar a investigar crimes que necessitassem de interceptações.

"O projeto [Sentinela] me pareceu bastante interessante. Eu levei essa ideia pra dentro da empresa para meus sócios e começamos a trabalhar esse projeto. Em fevereiro de 2015 apresentamos a primeira versão".

Marilson explicou que o sistema  funcionava por meio de um servidor, cujo acesso era remoto e conseguia receber 16 interceptações simultaneamente.

"O equipamento poderia ser instalado em qualquer lugar. Ele foi instalado no edifício perto da comandante Costa. O projeto quem construiu fui eu, os meus sócios e o [cabo] Torezan".

"O sistema era atualizado constantemente e melhoramos a parte de segurança, por exemplo: a pessoa que estivesse em uma operação só poderia acessar as escutas daquela operação".

Segundo o empresário, o equipamento custou R$ 60 mil, mas foi pago apenas R$ 24 mil por meio de um cheque emitido pelo coronel Evandro Lesco.

"O restante a gente não recebeu. A manutenção era feita pela empresa Titania pelo valor de R$ 1 mil, eu creio que foi pago. Eu cheguei a conversa uma vez com o Gérson sobre esse restante de dinheiro, mas depois de tudo isso eu resolvi não cobrar mais"

"Minha intenção com o sistema era patenteá-lo e locá-lo. O único lugar que eu apresentei o projeto foi a PM ,mas tinha a intenção de oferecer ao Gaeco também".


Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »