09/10/2016 às 13h03min - Atualizada em 09/10/2016 às 13h03min

Cadeirante eleito prefeito conta a superação diária e como venceu a disputa

O falante democrata disputou a cadeira de prefeito contra a atual prefeita Marlise Moraes (PSDB ) e obteve 54% dos votos numa cidade em que a economia gira em torno do agronegócio.

Jessica Bachega
Hiper Notícias
O vereador Jeferson defende politicas sociais voltadas para a saúde e deficientes (Foto: Alan Cosme/HiperNoticias)

Um cadeirante de 40 anos poderia se passar como qualquer outra pessoa portadora de necessidade especial. Mas Jeferson Ferreira fez diferente e se tornou um dos protagonistas da eleição deste ano em Mato Grosso. Venceu a disputa eleitoral em Comodoro e com ousadia no jeito de fazer o enfrentamento nas urnas ganhou um capítulo na história política do Estado . Ele é o primeiro prefeito eleito cadeirante do Estado.

Militante do DEM, Jeferson circulou por Cuiabá, na quinta-feira, com um colar indígena que ganhou de um cacique. Comodoro, distante 667 quilômetros da Capital, tem 14.061 eleitores, conforme o Tribunal Regional Eleitoral (TRE). O falante democrata disputou a cadeira de prefeito contra a atual prefeita Marlise Moraes (PSDB ) e obteve 54% dos votos numa cidade em que a economia gira em torno do agronegócio.

“Você pode ser o que quiser basta acreditar, confiar no seu potencial, ter fé em Deus e ir em frente”, afirma  Jeferson, que há 20 anos se tornou paraplégico após um acidente automobilístico. A condição não tirou sua autoconfiança, nem abalou sua fé em Deus. Pelo contrário, o motivou a cada vez mais trabalhar em prol da coletividade.

O adereço que ganhou do índio terá que utilizar pelos próximos 15 dias após as eleições. “Eu não tiro porque acredito muito nessas tradições”, disse.

O democrata é o primeiro prefeito cadeirante da história de Mato Grosso e o único a assumir o cargo de prefeito em todo o Brasil no ano de 2017, nesta condição. Em 2012, ele foi eleito vereador na cidade. 

Para a campanha de 2016, na qual superou a concorrente que disputava a reeleição, Jeferson investiu R$ 50 mil. “Eu tinha uma economia de R$ 6 mil e o fundo partidário contribuiu com R$ 8 mil, o restante conseguimos por meio de doações e apoio de vereadores”, contou o parlamentar.

O vereador já foi dono de uma tornearia, gerente de loja e promotor de eventos antes de ser convidado para concorrer a cadeira na Câmara Municipal de Vereadores  e posteriormente a chefe do Executivo de Comodoro. 

“Lembro que me procuraram e eu disse que poderia disponibilizar meu nome. Eram oito pré-candidatos e eu passei na convenção. Na ocasião me perguntaram se eu tinha R$ 200 mil para investir na campanha, eu disse que não. Tenho R$ 200, serve?”, relata Jeferson que contou com aliança de poucos partido. A maioria das siglas apoiou a prefeita.

“Fizemos um campanha próxima ao povo olhando nos olhos dos eleitores, visitei pequenas propriedades, aldeias indígenas”, contou.

Ele pontua que tem vários projetos para serem executados, tendo como carro-chefe os investimentos em iniciativas voltadas para a saúde e inclusão dos deficientes. 

“A prefeitura tem o dever de atender a sociedade e eu tenho vontade e me dispus para fazer melhor em prol da coletividade. A individualidade não funciona em lugar nenhum. Esse é meu pensamento. Precisamos combater os conflitos sociais”, declara.

“O meu projeto é tornar Comodoro um polo da saúde. A cidade está em uma região central e de divisa o que a deixa em evidência e propicia para ser um polo”, afirma.

“O deficiente não precisa de esmola, precisa de trabalho, de qualificação. Queremos  incentivar e ajudar aqueles que puderem estudar proporcionando mais oportunidades e valorizando estas pessoas. Precisamos tirar esta marra de que o deficiente não tem voz nem e vez. Os direitos existem, mas as pessoas têm que trabalhar para ter acesso a esses direitos. A valorização dos deficientes é uma das minhas prioridades”, frisa.

Um dia de cada vez

Com 40 anos, Jefferson tem dois filhos e é avô. Morando sozinho, ele diz que faz o trabalho doméstico, prepara suas refeições e cumpre seus afazeres como vereador e dirige para se deslocar  até seus compromissos.

“A deficiência está na cabeça das pessoas. No meu caso existe a cadeira que me leva para onde eu preciso. Tem 20 anos que estou na cadeira de rodas. As limitações existem para serem superadas. Eu acordo cedo sabendo que a cadeira me espera e eu já pulo pra ela feliz porque Deus me deu mais um dia de vida”, salienta. 

Jeferson ficou paraplégico após sofrer um acidente de caminhão na região de Tangará da Serra. Ele estava com um colega de trabalho quando o veículo que estavam capotou em uma serra.  Ambos ficaram presos nas ferragens das 3h até 10h quando foram encontrados e socorridos. Ele passou três meses em coma, em Cuiabá. Quando os médicos já estavam sem esperança, ele acordou e foi transferido para um hospital de Brasília, onde permaneceu por sete meses. Foi lá que recebeu a notícia de que nunca mais voltaria a andar. 

“Eles disseram que eu sofri uma lesão total da medula, em nível T7 e que não havia a possibilidade de andar nunca mais. Ali meu mundo desabou. Eu tive dois anos muito difíceis de recuperação. Foi uma batalha muito grande, eu era muito jovem. Naquele época ser deficiente era muito mais difícil do que hoje. Sempre ouvia das pessoas: ‘nossa tão bonitinho, tão novinho e na cadeira de rodas’".

“Eu tenho uma situação muito ímpar, pois nunca deixei a deficiência me abater. Eu me proponho ao desafio e tento sempre superar minhas limitações”, conta.

Muito convicto em sua fala, Jeferson cita a bíblia para explicar a sua recuperação. Ele lembra que sempre trabalhou muito o lado espiritual e que isso se intensificou após o acidente. 

Cada pessoa tem um potencial distinto

“A mensagem que eu deixo para as pessoas é para nunca fugir dos problemas, pois você só vai superar um problema se enfrentá-lo. Muitas pessoas estão em situações difíceis e não conseguem alavancar porque estão fugindo do problema”, explica o vereador.

O parlamentar ainda ressalta a autoconfiança e a autoestima para que se obtenha sucesso em qualquer projeto que se proponha a realizar, independente das dificuldade, da deficiência ou do que se propõe a fazer. 

Preconceito persistente

O vereador ressalta que o preconceito ainda é muito impregnado na sociedade e que as pessoas não têm noção do que é ter uma deficiência. Ele alerta a sociedade que contribua com os cadeirantes tornando suas calçadas acessíveis ou mesmo tendo a sensibilidade de ajudar alguém na rua. Até mesmo uma palavra pode mudar o dia de alguém.

Durante a campanha, o vereador conta que foi atacado com muitos preconceitos. As pessoas diziam: “como que um aleijado vai ser prefeito”, “ele não tem capacidade” a fim de desestabilizar sua campanha. Mas ele não se deixou abater. No entanto, nem todas as pessoas encaram os comentários preconceituosos com tanta tranquilidade. “Não é preciso uma bala para matar uma pessoa, apenas uma palavra basta”, ressalta.

Convites para programas nacionais

Desde que foi divulgado o resultado das eleições, Jeferson recebeu convites para participar dos programas de televisão Altas Horas, apresentado por Serginho Groisman, do Encontro, com Fátima Bernardes e do dominical Fantástico. Todos da rede Globo.

“O potencial não está nas pernas ou nos braços das pessoas. Essa é uma oportunidade de colocar o deficiente em evidência. É preciso levar o preconceito com mais seriedade, pois ninguém está livre de uma cadeira de rodas, de ter uma perna amputada, de ficar cego ou de ter um câncer. A participação nos programas nos ajudarão a levar essa mensagem de conscientização para todo o Brasil. Acredito que isso irá ajudar muito a mudar a realidade de muita gente”, conta. 


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