Já é amplamente conhecida a importância da amamentação para a saúde da mãe e do bebê, mas a ciência deu um passo importante para entender o mecanismo de proteção que o aleitamento materno oferece contra o câncer de mama.
Um novo estudo australiano publicado na revista científica Nature e apresentado em um congresso europeu de Oncologia Médica (Esmo), em outubro deste ano, sugere que mulheres que amamentam produzem mais células imunológicas especializadas capazes de reduzir as chances de desenvolver o câncer de mama triplo-negativo, um dos tipos mais agressivos.
A chave: as células de defesa
A explicação está no estímulo que o ciclo completo de gravidez, amamentação e recuperação das mamas proporciona ao organismo. Esse processo favoreceria o desenvolvimento de mais células T-CD8+ (linfócitos T citotóxicos).
A função dessas células é vital: atuar na defesa do corpo contra vírus, bactérias e, principalmente, células tumorais.
“Durante a amamentação, esse sistema [imunológico] se reorganiza, favorecendo a formação dos linfócitos T, que são células protetoras e, assim, diminuindo a chance da mãe desenvolver doenças como o câncer de mama”, explica a médica Carolina Sanchez Aranda, da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).
Pesquisas anteriores já haviam indicado a proteção, como um estudo de julho do ano passado que mostrou que a cada ano de aleitamento, a possibilidade de uma mulher desenvolver câncer de mama pode reduzir em 4,3%. O novo trabalho, porém, esclarece como isso acontece.
Como o estudo foi realizado
Para chegar à conclusão, os pesquisadores fizeram análises em três etapas, envolvendo humanos e animais.
- Análise Humana: Amostras de tecido mamário de 260 mulheres (com ou sem filhos) foram comparadas. O resultado mostrou que mulheres que tiveram filhos apresentavam mais células T protetoras. Algumas dessas células T, inclusive, eram de vida longa e persistiram por até 50 anos após a gravidez.
- Análise em Ratos: Ratos que procriaram e amamentaram foram comparados a outros que não tiveram filhotes. Ao implantar células tumorais nas glândulas mamárias, os animais que passaram pela lactação desenvolveram tumores menores.
- Câncer Triplo-Negativo: A equipe analisou cerca de 1.000 mulheres com o câncer de mama triplo-negativo. Aquelas que amamentaram apresentaram melhores taxas de sobrevivência e seus tumores continham mais células T.
“Esse estudo foi muito consistente em mostrar que o ato de amamentar e todo o mecanismo de involução [da mama] favorece a produção dessas células de defesa que persistem décadas no corpo”, resume a ginecologista Silvia Regina Piza F. Jorge, da Febrasgo.
Impacto no tumor agressivo
O câncer de mama triplo-negativo é considerado um dos mais agressivos, mais comum em mulheres jovens (abaixo dos 40 anos), e de difícil tratamento. Ele é definido pela ausência de três marcadores importantes, o que faz o tumor crescer mais rapidamente.
A descoberta, segundo a médica Carolina Sanchez Aranda, pode abrir novas portas para o tratamento. “A partir do momento que você esclarece que a amamentação consegue regular essas células imunológicas sem nenhuma medicação, é possível estudar outras formas de tratamento”, destaca.
Apesar dos achados, os especialistas reforçam que o câncer de mama tem risco multifatorial (genética e estilo de vida), mas o aleitamento materno é, sem dúvida, um pilar de regulação do sistema imunológico que contribui para a saúde materna.



