Sim, transtornos mentais existem e não são invenção e nem “modinha”

O sofrimento que hoje chamamos de depressão, ansiedade ou desatenção existe e é documentado há muito tempo, em diferentes culturas e épocas. O que mudou ao longo da história não foi a existência do sofrimento, mas sim a forma como nós entendemos ele e lidamos com ele. As classificações diagnósticas evoluíram para se tornarem mais precisas e humanas, desassociando as condições mentais de explicações místicas (como possessão demoníaca ou intervenção dos astros). Começamos a dar nomes. E esses nomes estão cada vez mais comuns no nosso dia a dia.

E por que mesmo assim algumas pessoas duvidam que as doenças mentais existem? Como provar que o tratamento psicológico e psiquiátrico funciona?

Pois bem, primeiro sempre respondo que o tratamento, seja psicoterapêutico ou medicamentoso, leva a alterações mensuráveis no funcionamento cerebral, comprovando que a condição não era uma “invenção”, mas uma disfunção real passível de alívio, seja pela técnica do psicólogo, seja pelo princípio ativo dos remédios.

E também, em um nível individual, algumas pessoas podem negar a possibilidade de ter um transtorno para evitar se sentirem vulneráveis ou fracas, pois a sociedade muitas vezes associa doença mental à fraqueza

Também vejo que existe uma tendência a querer encarar as doenças físicas como “reais” (porque se veem exames, lesões etc) e as mentais como “frescura” ou falta de força de vontade, ignorando que o cérebro é um órgão e os transtornos são condições médicas reais atuando fisicamente nele e comportamentalmente a partir dele.

O aumento da visibilidade e discussão sobre saúde mental é, em parte, positivo. No entanto, a forma como isso é veiculado, especialmente em redes sociais, pode levar à auto diagnóstico incorreto e ao uso de termos técnicos (como “ansiedade”, “TOC”, “TDAH”) de forma incoerente. Esse uso excessivo dos diagnósticos pode fazer com que pessoas de fora vejam a situação como uma “moda” ou uma “tendência”.

Inclusive, os dados epidemiológicos globais fornecidos por organizações internacionais refutam de forma enfática a ideia de que os transtornos mentais constituem um fenômeno trivial ou uma “modinha” passageira. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, alerta que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental. O impacto funcional dos transtornos mentais é classificado como a segunda maior causa de incapacidade de longo prazo em todo o mundo. E claro, isso se traduz diretamente em um impacto econômico. Os custos indiretos dos transtornos mentais, especialmente a perda de produtividade, são muito maiores do que os custos diretos com saúde. A ansiedade e a depressão, as condições mais prevalentes, custam à economia global cerca de US$ 1 trilhão por ano devido à perda de produtividade. No Brasil, a depressão é a primeira causa e as doenças mentais respondem por cinco das dez principais causas de afastamento do trabalho.

O excesso de visibilidade pode gerar o uso leviano de termos, mas isso jamais pode servir de desculpa para descredibilizar a dor de quem luta diariamente contra uma condição real e mensurável. Já não é mais hora de debater se os transtornos existem, mas sim garantir que eles sejam cada vez mais tratáveis com maior qualidade e celeridade. A saúde mental é a base da vida, tratá-la com seriedade é um ato de civilidade e inteligência coletiva.

*José Luiz Raymon é psicólogo clínico formado pela UFR, especialista na Terapia-Cognitivo Comportamental (TCC) e Análise Comportamental (AC). Filiado à Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidências (ABPBE). EMAIL: [email protected]

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