Padre é denunciado por desvio de dízimos e suspeitas de abusos contra ex-seminarista

Denúncia aponta uso de contas pessoais via Pix, irregularidades financeiras e relatos de violência psicológica envolvendo sacerdote

Reprodução

A Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar denúncias de desvio de recursos e possíveis abusos cometidos em paróquias ligadas à Diocese de Barra do Garças. A apuração foi aberta após determinação do Ministério Público do Estado (MPMT) e envolve fatos que teriam ocorrido entre 2023 e 2024 nas paróquias Senhor Bom Jesus da Lapa, em Ponte Branca, e São José Operário, em Araguainha.

O investigado é o padre Vandilson Pereira Sobrinho, que atuava como administrador das unidades no período citado. As denúncias foram apresentadas por um ex-seminarista, também jornalista, e vieram a público nesta sexta-feira (17).

De acordo com o material entregue às autoridades, há suspeitas de que valores provenientes de dízimos, ofertas e eventos religiosos teriam sido direcionados para contas pessoais do sacerdote por meio de transferências via Pix, sem registro nos sistemas oficiais da Diocese. Relatos de fiéis indicam que o método teria sido recorrente e dificultava o controle financeiro institucional.

Um dos pontos citados na denúncia é a diferença nos valores arrecadados após a saída do padre das paróquias. Segundo relatos, o montante mensal, que variava entre R$ 2,5 mil e R$ 3,5 mil, teria praticamente dobrado com a gestão de outro pároco.

O documento, com mais de 180 páginas, reúne comprovantes, conversas, laudos médicos e depoimentos. Também aponta a existência de um possível esquema financeiro envolvendo arrecadações de festas religiosas, rifas e doações, que, segundo a denúncia, não eram integralmente registradas nas contas paroquiais.

Além das suspeitas financeiras, o material relata episódios de violência psicológica contra o ex-seminarista, incluindo humilhações públicas, intimidações e restrições dentro da casa paroquial. Segundo a denúncia, os fatos teriam começado em dezembro de 2023, quando a vítima iniciou período de formação religiosa.

O denunciante afirma ter sido submetido a situações degradantes, como privação de alimentos e exposição durante celebrações religiosas. Há ainda registros médicos que indicam internações por problemas de saúde associados ao ambiente relatado, incluindo passagem por unidade hospitalar em Cuiabá.

Entre os episódios descritos, também consta a cobrança de despesas pessoais ao seminarista, como custos de energia elétrica e manutenção de veículo da paróquia. Os pagamentos teriam sido feitos por transferência bancária e anexados ao inquérito.

A denúncia menciona ainda um suposto caso envolvendo um menor de idade, com relato de pagamento para realização de massagens, acompanhado de material que teria sido entregue à Polícia Civil e incorporado à investigação.

Outro ponto levantado diz respeito à estrutura administrativa das paróquias, que, segundo o documento, funcionariam sem participação efetiva dos conselhos paroquiais, com decisões concentradas na figura do sacerdote.

Paralelamente à investigação criminal, o denunciante informou ter acionado instâncias da Igreja Católica, incluindo o Vaticano, com pedido de afastamento do padre com base no Direito Canônico. Também há questionamentos sobre a atuação da Diocese diante das denúncias.

Após a formalização do caso, o padre foi transferido para outra paróquia em Barra do Garças. Segundo a denúncia, a mudança ocorreu após o conhecimento dos fatos pelas autoridades e pela própria instituição religiosa.

O sacerdote apresentou queixa-crime contra o denunciante por calúnia e difamação. A vítima já foi ouvida pela Polícia Civil no âmbito do inquérito, que segue em andamento.

As investigações devem apurar a veracidade das acusações, incluindo possíveis crimes de natureza financeira e eventuais responsabilidades administrativas e penais.

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