Lula, Bolsonaro e Ney Matogrosso

Minha mulher disse que há um risco grande de eu ser mal interpretado

Vou antecipar aqui os assuntos dos artigos que escreverei nos próximos dias, sobre animais em extinção.

Serão três crônicas. A primeira abordará a preocupação dos ambientalistas com o possível extermínio dos jegues nordestinos. Dizem que a crescente busca pela pele desses animais, que é usada principalmente na Ásia, tem motivado a matança indiscriminada deles.

Claro que é um receio ingênuo. Se aumentar a busca por essas peles, basta fazer uma criação comercial dos jegues, que são animais resistentes e prolíferos. Como acontece com bois, porcos, frangos etc., o aumento de criação acompanha o crescimento da demanda.

A segunda discutirá a preservação da anta. Aqui o problema é um pouco mais complexo porque sua existência depende da manutenção de ambientes naturais onde ela vive e procria. Não há como criá-la em fazendas e depois devolvê-la ao habitat original. O texto explorará essa vertente, pedindo ajuda ao ambientalista Carlos Nobre, que tem sugestões originais, embora bizarras, para a preservação da Amazônia, região onde as antas proliferam.O herói do terceiro texto é o cervo pantaneiro, um dos animais mais elegantes da fauna brasileira. Ele sobreviveu aos caçadores e seus cachorros treinados que o perseguiam em um passado recente e, embora em menor quantidade, ainda habitam o cerrado, principalmente no centro-oeste.

Mas os pontos altos dos meus textos serão as imagens que ilustrarão cada publicação. Para o primeiro, aquele que trata do jegue nordestino, estou buscando na internet uma foto recente do presidente Lula. A ideia é mostrar que este, como aquele (o Lula e o jumento), têm em comum uma grande resistência para suportar os maus tratos e, galhardamente, o assédio dos anos: aos 80 anos ele parece muito bem (o Lula, não o jegue).

Para o artigo sobre a extinção deste magnífico e majestoso animal que é a anta, já encontrei uma foto do Bolsonaro destacando sua resistência e luta contra aqueles que querem extingui-lo, senão física pelo menos politicamente. A imagem indica que, tal qual a anta que sobreviveu aos caçadores e seus cachorros adestrados — ele também continua resistindo.

Por último, vem o texto do cervo do Pantanal. Encontrei uma bela foto do Ney Matogrosso que serve muito bem ao propósito deste assunto. A razão é a inigualável beleza plástica, a leveza dos movimentos e a extraordinária elegância deste inigualável artista brasileiro, que lembram o belo animal pantaneiro.

Consultada sobre a possível reação negativa das pessoas a este texto que antecipa os artigos, minha mulher, que é uma leitora crítica, disse que havia um risco grande de ser mal interpretado pelos leitores.

Assim, por precaução, deixei-o “debaixo do balaio” como se diz na roça de onde eu venho, expressão que equivale ao “stand by” aqui da cidade.

Hoje chegou o dia de mandar o artigo semanal para a imprensa e, como não tinha outro texto pronto e nem inspiração (preguiça, é verdade) para escrever, olhei debaixo do balaio e o vi lá.

— Glória a Deus! — exclamei.

Ei-lo, seja o que Deus quiser.

Renato de Paiva Pereira é escritor e empresário.

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