Em menos de uma semana, três episódios envolvendo agentes da segurança pública de Mato Grosso colocaram o Estado diante de um espelho incômodo.
Em Sorriso, um delegado e um investigador da Polícia Civil se envolveram em um confronto armado que terminou com prisão em flagrante por tentativa de homicídio. Em Cuiabá, um investigador foi condenado pelo homicídio de um policial militar ocorrido em 2023. Dias depois, outro investigador da Polícia Civil foi encontrado morto dentro de um veículo, em circunstâncias que apontam para suicídio.
Três casos distintos. Três formas diferentes de ruptura. Um único pano de fundo: o silêncio institucional sobre a saúde mental daqueles que o próprio Estado coloca na linha de frente da violência cotidiana.
Em meio à comoção pública, surgem respostas rápidas, simplistas e contaminadas pela polarização. De um lado, discursos que transformam qualquer crítica institucional em ataque às forças de segurança. De outro, narrativas que ignoram completamente a dimensão humana desses profissionais, reduzindo episódios complexos a meros desvios individuais. Nenhum dos extremos resolve o problema — e ambos, a seu modo, perpetuam o abandono.
O policial, o bombeiro, o agente penitenciário e tantos outros profissionais da segurança convivem rotineiramente com violência, morte, ameaça, hipervigilância e pressão social contínua. O corpo até pode permanecer fardado. A mente, muitas vezes, já entrou em colapso há muito tempo.
Os números confirmam o que a realidade insiste em demonstrar. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam índices elevados de ansiedade, depressão, síndrome de burnout e estresse pós-traumático entre agentes de segurança, além de dados alarmantes relacionados ao suicídio desses profissionais. Trata-se de uma estatística que deveria constranger qualquer modelo estatal que pretenda discutir eficiência administrativa sem discutir cuidado humano.
O Estado brasileiro exige desses agentes autocontrole absoluto, decisões rápidas e equilíbrio emocional em cenários que frequentemente ultrapassam os limites ordinários da experiência humana. Contudo, o mesmo aparato estatal que cobra excelência operacional raramente oferece suporte psíquico proporcional à brutalidade da função exercida.
Essa omissão não pode ser tratada como mera falha administrativa pontual. Trata-se de um problema estrutural de política pública — e também de uma questão constitucional.
Não existe segurança pública efetiva quando aqueles encarregados da proteção coletiva são emocionalmente abandonados pelo próprio Estado.
Cuidar da saúde mental dos agentes de segurança não representa fragilidade institucional. Ao contrário: trata-se de medida de fortalecimento democrático, de proteção coletiva e de eficiência estatal.
Países como Portugal e Canadá já incorporaram protocolos permanentes de acompanhamento psicológico em suas forças policiais, com resultados associados à redução de afastamentos, episódios de violência institucional e adoecimento emocional crônico.
No Brasil, treinamento contínuo, reciclagem periódica, acompanhamento psicológico obrigatório e reinserção constante nos espaços de formação deveriam ser compreendidos como investimento estratégico — e não como gasto dispensável.
Voltar às academias é mais do que atualização técnica. É reconstrução emocional, fortalecimento ético e reafirmação de que o uso legítimo da força exige estabilidade psíquica tanto quanto preparo físico.
O debate sobre segurança pública precisa amadurecer. E amadurecer, neste caso, significa compreender que armas, viaturas e equipamentos não substituem cuidado humano.
Quem protege a sociedade também precisa de cuidados. Porque por trás da farda existem seres humanos — e, junto deles, famílias inteiras atravessadas silenciosamente pelos impactos emocionais da violência cotidiana.
*Anna Paula Cambahuba é Advogada, pesquisadora de Direitos Humanos e Direitos Fundamentais. É filha e esposa de Policiais Civis.




