Empresas firmam acordo e vão pagar R$ 8,7 milhões a trabalhadores resgatados em MT

Mais de 400 vítimas receberão indenização após fiscalização identificar condições degradantes em obra de usina de etanol em Porto Alegre do Norte

Imagens do local onde foram encontrados os trabalhadores - Reprodução

O Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT-MT) firmou, na última sexta-feira (20), dois Termos de Ajuste de Conduta (TACs) com as empresas Três Tentos Agroindustrial S/A, Construtao Engenharia Ltda. e TAO Construtora Ltda., estabelecendo o pagamento de R$ 8,7 milhões por danos morais individuais a mais de 400 trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão em Porto Alegre do Norte, a 1,3 mil quilômetros de Cuiabá.

Pelos acordos, cada trabalhador receberá R$ 20 mil. Ficam de fora apenas aqueles que já haviam ingressado com ações judiciais antes da assinatura dos TACs. As empresas também assumiram responsabilidade solidária pelo pagamento das indenizações e deverão pagar R$ 2 milhões por dano moral coletivo.

Os recursos do dano coletivo serão destinados a instituições e projetos voltados à promoção do trabalho digno, conforme definição do MPT, com base na Lei nº 7.347/85.

Além das indenizações, os TACs impõem uma série de obrigações para evitar novas irregularidades. A Três Tentos deverá reforçar a fiscalização sobre empresas contratadas, implementar sistemas permanentes de auditoria e adotar políticas de diligência em direitos humanos, incluindo canais de denúncia com garantia de sigilo.

Já a Construtao Engenharia e a TAO Construtora assumiram 31 obrigações, entre elas a proibição de submeter trabalhadores a condições degradantes, além de garantir alojamento adequado, alimentação de qualidade, fornecimento contínuo de água potável e energia elétrica, e cumprimento integral da legislação trabalhista.

As irregularidades foram constatadas entre julho e agosto de 2025, durante operação conjunta do MPT, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Polícia Federal (PF), que resgatou 563 trabalhadores na obra de uma usina de etanol.

As fiscalizações apontaram um cenário de degradação, com alojamentos superlotados, falta de água e energia, alimentação inadequada e jornadas exaustivas. Também foram identificados pagamentos irregulares de horas extras e relatos de aliciamento de trabalhadores de outros estados, como Maranhão, Piauí e Pará.

Os trabalhadores dormiam em colchões usados ou no chão, sem estrutura mínima de higiene. A situação se agravou com falhas no fornecimento de energia, que interromperam o abastecimento de água, deixando os empregados dias sem condições básicas de consumo e higiene.

A alimentação fornecida também foi alvo de denúncias, com registros de comida estragada, além da presença de larvas e moscas.

O caso ganhou repercussão após um incêndio atingir alojamentos e outras estruturas do canteiro de obras, agravando a situação e intensificando as fiscalizações. Após o episódio, parte dos trabalhadores foi transferida para hotéis e imóveis alugados na cidade. Cerca de 60 pessoas perderam todos os pertences.

Também foram registradas demissões por justa causa e pedidos de desligamento antecipado, além de relatos de trabalhadores que ficaram sem recursos para retornar aos seus estados de origem após serem reprovados em processos seletivos.

O descumprimento das obrigações previstas nos TACs poderá resultar na aplicação de multas.

Para o MPT, os acordos representam avanço na responsabilização das empresas e na prevenção de novas violações, com alcance nacional e foco na garantia de condições dignas de trabalho.

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