A política virou entretenimento e isso é perigoso

Durante muito tempo, a política foi vista como um espaço de debate, confronto de ideias e construção de soluções para problemas reais da sociedade. Hoje, em muitos casos, ela se transformou em espetáculo. O que antes exigia reflexão, agora precisa render corte. O que antes era argumento, virou meme. E o eleitor, cada vez mais, é tratado como torcida organizada.

As redes sociais mudaram a forma como as pessoas consomem informação. Isso é inevitável. O problema começa quando assuntos sérios passam a ser resumidos em vídeos de 30 segundos, frases de efeito e discussões rasas que só servem para gerar engajamento. A lógica da internet premia quem grita mais alto, quem provoca mais indignação e quem consegue viralizar. Não necessariamente quem tem preparo, proposta ou compromisso com a verdade.

Hoje, muitos políticos não falam mais para explicar. Falam para viralizar. Cada entrevista parece um palco. Cada sessão vira oportunidade de lacração. O adversário político deixa de ser alguém com visão diferente e passa a ser tratado como inimigo que precisa ser destruído diante da plateia digital.

O mais preocupante é que boa parte da população entrou nesse jogo. Muita gente já não acompanha política para entender o futuro do país, do estado ou da cidade. Acompanha para defender um lado, atacar o outro e compartilhar conteúdos que confirmem aquilo em que já acredita. É como futebol. Se o “meu time” erra, eu passo pano. Se o outro erra, eu transformo em escândalo.

Nesse ambiente, o debate perde qualidade. Problemas complexos deixam de ser discutidos com profundidade porque profundidade não viraliza. Reforma tributária, saúde pública, educação, segurança, infraestrutura, geração de empregos. Tudo isso exige tempo, dados e responsabilidade. Mas na internet, muitas vezes, vence quem consegue transformar um tema sério em um vídeo engraçado ou em uma frase agressiva.

Existe também outro risco silencioso: a desinformação. Um corte fora de contexto consegue alcançar milhões de pessoas em poucas horas. Um meme pode destruir reputações. Uma mentira repetida várias vezes passa a parecer verdade. E enquanto as pessoas brigam nos comentários, decisões importantes continuam sendo tomadas longe da atenção da maioria.

Não se trata de defender uma política fria ou distante da população. A comunicação moderna aproximou lideranças das pessoas e deu voz a muita gente que antes não tinha espaço. Isso é positivo. Mas existe diferença entre comunicar e transformar tudo em entretenimento.

Quando a política vira apenas espetáculo, o cidadão deixa de agir como eleitor consciente e passa a agir como fã. E fã não questiona. Só aplaude.

O Brasil precisa recuperar a capacidade de conversar sobre política com maturidade. Discordar faz parte da democracia. Mas transformar tudo em guerra de torcida só interessa a quem lucra com o caos, com a polarização e com a distração coletiva.

Enquanto a população estiver ocupada discutindo memes, cortes e provocações de internet, temas realmente importantes continuarão ficando em segundo plano.

E esse talvez seja o maior perigo de todos.

Por Mizael Duarte, jornalista e radialista

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