Mato Grosso consolidou-se nas últimas décadas como o principal símbolo da força do agronegócio brasileiro. O Estado lidera a produção nacional de soja, milho e algodão, possui uma das maiores expansões de área cultivada do mundo e tornou-se peça central da segurança alimentar global. Ao mesmo tempo, também passou a representar um dos ambientes mais complexos do país quando o assunto é crédito, gestão de riscos e reestruturação financeira no agro.
Nos últimos anos, o aumento das recuperações judiciais envolvendo produtores rurais, grupos agroindustriais, revendas agrícolas e empresas ligadas à cadeia do agronegócio trouxe à tona uma discussão importante: o problema do agro brasileiro não está na produção. Está, principalmente, na gestão financeira, na governança e na forma como parte relevante do setor se estruturou financeiramente durante o último ciclo de expansão.
O agronegócio mato-grossense viveu um período de crescimento acelerado impulsionado por commodities valorizadas, crédito abundante, expansão patrimonial e forte liquidez global. Nesse ambiente, muitos produtores ampliaram área, adquiriram maquinário, expandiram operações e passaram a acessar estruturas cada vez mais sofisticadas de financiamento.
Hoje, o setor enfrenta uma combinação extremamente desafiadora: juros elevados, crédito mais restrito, aumento dos custos de produção, margens comprimidas e maior seletividade dos financiadores. Com a taxa Selic próxima de 15% ao ano, o custo do capital passou a pressionar fortemente o caixa das operações rurais.
Ao mesmo tempo, o agro deixou de depender apenas do crédito bancário tradicional. O financiamento da atividade passou a envolver CPRs, barter, CRA, Fiagro, FIDC, alienações fiduciárias, cessões fiduciárias, ACCs e outras estruturas típicas do mercado de capitais e do crédito estruturado.
Isso significa que o produtor rural moderno passou a operar em um ambiente muito mais sofisticado financeiramente — muitas vezes antes mesmo de profissionalizar sua gestão.
Essa talvez seja uma das principais raízes do problema.
Em diversos casos observados no mercado, ainda há ausência de orçamento de safra, deficiência de controle de caixa, baixa previsibilidade financeira, compras de insumos sem estratégia, pouca utilização de mecanismos de proteção de margem e forte confusão entre patrimônio e operação.
Em outras palavras: o agro brasileiro evoluiu rapidamente em tecnologia produtiva, mas nem sempre evoluiu no mesmo ritmo em gestão.
E isso se torna ainda mais sensível em um Estado como Mato Grosso, cuja atividade econômica é profundamente dependente do agronegócio e altamente exposta à volatilidade de commodities, câmbio, clima e crédito.
A consequência natural desse ambiente é o aumento dos processos de reestruturação.
Mas é importante destacar um ponto: reestruturação não deve ser confundida com fracasso.
A recuperação judicial, a recuperação extrajudicial e os chamados workouts financeiros passaram a ocupar um espaço legítimo dentro do ambiente empresarial moderno. Em muitos casos, esses mecanismos são justamente o instrumento necessário para reorganizar passivos, preservar operações economicamente viáveis e permitir a continuidade da atividade produtiva.
O grande desafio está na forma como essas reestruturações são conduzidas.
No agro, especialmente em Mato Grosso, os processos se tornaram muito mais complexos do que em outros segmentos da economia. Isso porque grande parte das dívidas está vinculada a instrumentos extraconcursais, garantias fiduciárias, CPRs físicas, barter e contratos ligados diretamente à produção.
Além disso, o setor possui uma característica muito própria: a fazenda não pode parar.
A interrupção da operação compromete safra, produtividade, ativos biológicos, fluxo de caixa futuro e, muitas vezes, a própria viabilidade da reestruturação.
Por isso, qualquer processo sério de reorganização no agro precisa ir muito além da renegociação da dívida.
É necessário integrar:
* gestão financeira;
* governança;
* controle de caixa;
* gestão de riscos;
* estratégia operacional;
* proteção de margem;
* e capacidade de execução.
O mercado de crédito passou a exigir exatamente isso.
Hoje, bancos, fundos, tradings, cooperativas e investidores analisam não apenas patrimônio e garantias, mas também governança, previsibilidade financeira, qualidade da informação, capacidade de gestão e disciplina operacional.
A própria evolução recente da jurisprudência e dos normativos ligados à recuperação judicial do produtor rural caminha nessa direção. O foco passou a ser cada vez mais a análise da efetiva atividade econômica, da organização financeira e da viabilidade operacional da empresa rural.
Nesse contexto, Mato Grosso acaba funcionando como uma espécie de laboratório da nova realidade do agronegócio brasileiro.
O Estado reúne:
* produção em larga escala;
* forte dependência de crédito;
* ampla presença de mercado de capitais;
* elevado nível de alavancagem;
* e crescente sofisticação das estruturas financeiras.
Por isso, também concentra discussões cada vez mais relevantes sobre governança, risco, insolvência e reorganização empresarial.
O próximo ciclo do agro provavelmente será menos patrimonial e mais gerencial.
Os vencedores não serão apenas os maiores produtores ou os que mais expandirem área, mas aqueles capazes de gerir melhor risco, caixa, margem, capital e governança.
No fim do dia, a grande transformação do agro brasileiro talvez seja exatamente essa: compreender que produzir bem continua sendo essencial, mas gerir bem passou a ser determinante para sobreviver.
André Rocha é administrador, escritor e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Rastreamento de Ativos (IBRA).




